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  • Foto do escritorHeloisa Rocha

Projeto Ana Paula de Paula

Atualizado: 3 de jan.

CDMD-OAB/RJ e BlueMan lançam roupas de banho para mulheres mastectomizadas.


Em um ambiente composto por paredes e piso rosa, há cinco mulheres sentadasem puffs, também, rosa. Todas elas vestem um modelo rosa da coleção de roupas de banho para mulheres mastectomizadas da BlueMan, sendo três com biquíni e duas com maiôs. Todas as mulheres possuem pele de cor branca, cabelos curtos ou na altura dos ombros e aparentam ter mais de 40 anos.
Coleção inclusiva da BlueMan (Divulgação)

No dia 28 de setembro de 2023, quinta-feira, a partir das 09h30, acontece, no Salão Nobre da OAB do Rio de Janeiro, o lançamento da primeira coleção inclusiva do Projeto Ana Paula de Paula, iniciativa criada pela Comissão de Direito da Moda da OAB-RJ. Trata-se da apresentação das roupas de banho para mulheres mastectomizadas desenvolvidas pela BlueMan, empresa parceira e que, também, abraçou a causa.


De acordo com a diretora da BlueMan, Sharon Azulay, o convite para parceria veio de Nathália Patrizi, advogada da empresa e membro Comissão, a pedido da presidente da CDMD - OAB/RJ, Deborah Portilho. E, após entender a proposta, a empresária disse que aceitou no mesmo instante, pois, segundo Sharon, não tem como ela, como mulher e como empresa, não abraçar a causa e tornar real este propósito.


Deborah Portilho contou que, antes do convite, os membros Leonardo Cordeiro e Saulo Calazans chegaram a produzir um relatório minucioso com todas as iniciativas em moda existentes para mulheres mastectomizadas e, também, com ideias que não infringiriam os direitos de terceiros. O documento foi entregue para Silvana Louro, CEO da Equal Moda Inclusiva, e o marido de Ana Paula de Paula, que, juntos, analisaram o que poderia ser adequado. Entretanto, o design final e a criação das peças inclusivas foram feitas por Heloisa Ribeiro, estilista da BlueMan.


Inicialmente, a coleção inclusiva contará com três modelos - dois de biquíni e um de maiô - e estará disponível nas cores preta e rosa, em alusão ao Outubro Rosa. Mas, segundo Sharon Azulay, a vontade é de que haja um modelo para cada estampa da marca. Além disso, as peças serão, em um primeiro momento, comercializadas apenas site da BlueMan, pois foi a forma mais certeira e prática que a marca encontrou para apresentar a real proposta do produto. Entretanto, a empresária disse que, a depender da demanda, a ideia é de dispor as peças nas principais lojas.


Todas as peças são feitas em lycra e, de acordo com a diretora da BlueMan, foi criado na parte superior um modelo que não vem acoplado com nenhum tipo de bojo, enchimento ou algo do tipo. Em outras palavras, as roupas da marca possuem uma adaptação segura para que a mulher encaixe o próprio enchimento - deixando-a livre para usar o tipo de material que possui ou prefere - do lado que necessitar, pois há pessoas que perderam a mama direita, esquerda ou, até mesmo, as duas. Mas este não foi grande desafio enfrentado, e sim o de entender todos esses corpos e essas cicatrizes. E após muita experimentação, a empresa conseguiu manter tanto o caminho do mais fácil - algo mais fechado - quanto o oposto, ou seja, algo que tivesse a mesma estrutura de um biquíni tradicional.


Sentada de lado, Beth está séria e olhando para o infinito e com uma mão repousando em uma das pernas e a outra sobre o seu ombro coberto. Há um tecido rosa cobrindo o seu corpo, deixando apenas um dos ombros à mostra e, também, a cicatriz lateral ocasionada pela retirada da mama. O fundo da imagem é branco. Beth é uma mulher de pele branca, magra, olhos castanhos e cabelos loiros, lisos, na altura da nuca e penteados para a trás, formando um topete do mesmo lado da cicatriz.
Beth Grando posa mostrando sua cicatriz (Foto: Fernando Ocazione)

A mastologista Thereza Cypreste, fundadora da Adama - Associação dos Amigos da Mama de Niterói, afirma que este lançamento é fundamental para que uma lacuna na moda inclusiva seja preenchida, pois, segundo a especialista, é comum que as mulheres que passaram por uma mastectomia não se animem em ir à praia por não terem uma roupa adequada e, consequentemente, se sentirem excluídas. Ela ainda ressalta que nem sempre uma reconstrução imediata é possível tanto por questões técnicas (e financeiras) quanto pela ausência de um profissional adequado para a realização da cirurgia.


Já a empresária Beth Grando, do StudioBethGrando, exalta a grandiosidade do projeto, uma vez que, além de inovador, foi pensado para aquelas que não têm uma mama, independente de usarem uma prótese fixa ou não. Ela, inclusive, descobriu em 2019 que tinha um câncer de mama após a realização de exames para a troca de uma prótese. Felizmente, o câncer estava em estágio inicial e, na época, o médico optou por retirar a mama inteira e fazer o esvaziamento da lateral da axila para manter uma reserva, ou seja, obter uma extensão maior para cercar o tumor. Durante esse processo, um expansor foi colocado na região que, mês a mês, foi preenchido por uma solução salina, mas que só pode ser implantado nas mulheres que não se submeterem à radioterapia. Depois, ela fez quimioterapia, que culminou na perda total dos cabelos. Hoje, Beth está em remissão que, para ela, é encarada como a cura.


Quem foi Ana Paula de Paula?

Sentada em uma cadeira de estofado claro e braços de metal prateado, Ana Paula de Paula está com as mãos apoiadas nas pernas e sorrindo com os dentes à mostra. Ela veste uma calça preta e uma camisa de mangas compridas com fundo preto e estampa nas cores vermelha e amarela e, além disso, usa brincos pequenos e batom de cor marrom escuro. Ana Paula de Paula é uma mulher preta, magra, careca e com as sobrancelhas bem delineadas. O fundo da imagem é um salão e, na foto, há um espelho atrás dela, que reflete duas pias brancas para lavar cabelo.
Drª Ana Paula de Paula (Arquivo Pessoal)

A presidente da CDMD - OAB/RJ, Deborah Portilho, conta que, em 2016, conheceu a Ana Paula de Paula em uma das aulas nas quais ministra. Na época, a aluna estava aposentada e havia se curado de um câncer. E, segundo Deborah, ambas se simpatizaram logo de cara, construindo, dessa forma, uma bonita amizade.


De tanto a Ana Paula de Paula se interessar pelo Direito da Moda, Deborah Portilho que, desde 2016, preside a Comissão de Direito da Moda da OAB-RJ decidiu convidá-la para participar da Comissão, na qual ela passou a colaborar na organização de vários eventos, como também protagonizou em alguns. Durante este período, o câncer de Ana Paula de Paula voltou e, infelizmente, veio a falecer.


Deborah lembra que ambas conversavam muito e que, inclusive, tinha ciência da luta que Ana Paula de Paula travava contra o câncer de mama, mas que ambas não entravam em detalhes sobre a doença. Independentemente disso, a presidente da CDMD - OAB/RJ disse que o período de tratamento não foi um empecilho para que Ana Paula de Paula cumprisse com suas obrigações dentro da Comissão, inclusive no período da pandemia em que todas as atividades foram realizadas de forma virtual.


Através do marido de Ana Paula de Paula, Deborah Portilho soube do falecimento da amiga e, também, do quanto a CDMD - OAB/RJ era importante em sua vida e, por este motivo, decidiu homenageá-la criando, em abril de 2022, o Projeto Ana Paula de Paula, que, inicialmente, ainda tomava forma, mas que teria o câncer de mama como foco principal.

Eu quis homenagear a Ana Paula de Paula não só pela pessoa maravilhosa que ela era, mas porque a Comissão tinha um papel na vida dela muito importante e eu gostaria de que o nome dela fosse lembrado.

Durante as conversas que teve com o marido de Ana Paula de Paula, Deborah soube que, desde que a amiga havia feito a mastectomia, às idas a praia - que ela adorava - passaram a ser muito desconfortáveis, uma vez que o enchimento se mexia ou saia do lugar e, até mesmo, ficava desproporcional em relação ao outro seio após ficar empapado de água. A empresária Beth Grando complementa dizendo que soube de casos de mulheres totalmente solares que, depois da retirada da(s) mama(s), deixaram de frequentar este ambiente pelo fato de a prótese removível sair e, em alguns casos, perder na areia ou no mar, deixando-as constrangidas e totalmente apagadas por essa dificuldade.


A partir deste relato, Deborah Portilho, junto à Comissão de Direito da Moda da OAB-RJ, iniciou os trabalhos de pesquisa para a criação de um produto que unisse a moda ao propósito de oferecer suporte e acolhimento às pessoas que enfrentam o câncer de mama, que resultou na coleção inclusiva de roupas de banho para mulheres mastectomizadas.


Quanto ao futuro do Projeto Ana Paula de Paula, a presidente da CDMD - OAB/RJ explica que o objetivo foi cumprido, ou seja, o de lançar a primeira coleção para mulheres mastectomizadas que se chamasse Ana Paula de Paula. Entretanto, ela garante que a Comissão de Direito da Moda da OAB-RJ está aberta para quem quiser trazer novas propostas e, para isso, os(as) interessados(as) podem entrar em contato através do e-mail cdmd@oabrj.org.br ou pelo Instagram, clique aqui.

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