Meias e Luvas para Diabéticos
- Heloisa Rocha

- há 1 dia
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Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará desenvolvem tecido de fibra de carbono para o tratamento de feridas crônicas de pacientes.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes, o país conta com mais de 13 milhões de pessoas vivendo com a doença, o que representa 6,9% da população total. A falta de controle dos níveis de glicose no sangue pode levar a lesões graves nos pés e nas pernas, que, sem tratamento adequado, evoluem para infecções e necroses, tornando a amputação inevitável.
O assunto é uma questão de saúde pública, uma vez que, segundo dados do Ministério da Saúde, foram feitas 10 mil amputações em 2022, representando uma média de 28 procedimentos por dia.

Diante de tal realidade, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará vem trabalhando em um tecido que permite liberar um fármaco para tratar a ferida crônica do diabético.
Um dos autores dessa tecnologia, o professor Pedro Martins conta que, durante o mestrado e o doutorado, trabalhou com nanomateriais liberadores de óxido nítrico, gás com diversas ações terapêuticas, como vasodilatador, antimicrobiana, anti-inflamatória, angiogênica - crescimento de vasos sanguíneos a partir da vasculatura preexistente -, anticancerígena e cicatrizante. Ao pesquisar outros estudos, ele encontrou um que utilizava emplastos liberadores do gás em questão para o tratamento de neuropatia periférica. Além disso, no laboratório, existia um projeto com um tecido de carvão ativado, que tinha alta capacidade de reter e segurar compostos.
A partir disso, Pedro Martins teve a ideia de utilizar esse tecido para adsover um liberador de óxido nítrico, podendo, dessa forma, confeccionar meias, luvas, bandanas e curativos com esse material.
Mas como funciona? Resumidamente, o professor explica que a proposta da sua pesquisa pode ser dividida em duas etapas, sendo a primeira de adsorver (reter/segurar) um composto liberador de óxido nítrico em suas fibras. E a outra corresponde ao momento em que o material entra em contato com a pele, onde é liberado o gás e retido outros produtos da degradação/decomposição do composto, que podem ser nocivos. Obtendo assim, segundo ele, um produto mais seguro.
Outro ponto que Pedro Martins destaca é que foi comprovado que o tecido libera óxido nítrico de forma controlada por 12 dias, mantendo uma quantidade constante do composto e em níveis terapêuticos sem a necessidade de altas dosagens.

O invento teve sua carta-patente concedida e, além disso, foi aprovado no Edital Centelha, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que visa estimular a criação de empreendimentos inovadores. No entanto, o professor Pedro Martins deixa claro que a tecnologia patenteada foi o tecido liberador, com a perspectiva do uso em tratamento do pé diabético. Por esse motivo, ele diz se mostrar preocupado com a proporção que a notícia se espalhou e, também, com as interpretações feitas, uma vez que ainda será necessário realizar testes pré-clínicos e, depois, clínicos em humanos antes da sua disponibilização. A estimativa é que leve dez anos para que a população possa ter acesso ao produto.
Caso isso ocorra, o autor do invento diz que, devido às diversas aplicações do óxido nítrico, há a possibilidade de uso do tecido para tratamento de neuropatia periférica, melanoma e edemas e, também, para a área da estética. Porém, ele ressalta que, até então, se trata de um produto para o tratamento da ferida crônica do diabético e não para tratar ou curar a doença em si. E finaliza dizendo que, mesmo após a disponibilização no mercado, os pacientes ainda terão a necessidade de passar por acompanhamento e assistência, visto que a tecnologia estudada servirá para tratar a consequência e não a causa do problema.
Integram a equipe de trabalho do estudo os professores: Elisane Longhinotti (orientadora de doutorado de Pedro Martins), Eduardo Henrique Silva de Sousa (coorientador), Luiz Gonzaga de Franca Lopes e o bolsista do programa Empreende UFC, Isaac Lucas Araujo Lopes.







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